Sem dúvidas, a série Arcane, a primeira animação de League of Legends, na Netflix é uma das grandes surpresas de 2021 no serviço de streaming. O que era para ser uma produção para os fãs do popular MOBA, acabou se tornando um enorme fenômeno entre todos os telespectadores da plataforma. 

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Quem fala isso não sou eu, mas o próprio público e a crítica. No Rotten Tomatoes, um dos maiores sites de agregadores de notas, Arcane está com 100% de aprovação entre os críticos e 98% de aprovação entre aqueles que assistiram o desenho. Então, é um fato, Arcane é um dos maiores sucessos da Netflix. 

O que é uma maravilha, pois produções audiovisuais baseadas em jogos geralmente não fazem sucesso com público e com jogadores. Existem diversos exemplos de filmes inspirados em games que não foram tão bem sucedidos: Assassin’s Creed e Monster Hunter, por exemplo. 

Porém, nos últimos anos, esse panorama tem mudado e pra melhor (ainda bem). Produções como Tomb Raider, Sonic, a série The Witcher, e as animações Castlevania e de The Witcher: Lenda do Lobo só evidenciam a melhora nesse cenário. Com Arcane, as coisas não são diferentes. Em apenas nove episódios, somos apresentados a um mundo cheio de personagens complexos e uma história já vista em outras obras, mas muito bem desenvolvida e com ramificações que podem gerar o nascimento de outras narrativas.

Arcane
O mundo de Runeterra é introduzido ao público geral na primeira temporada de Arcane. Foto: Divulgação/Riot Games

Antes de tudo, é importante avisar que você não precisa ter jogado League of Legends para poder assistir o desenho. A animação acontece antes dos eventos do jogo e é uma introdução para aqueles que nunca ouviram falar sobre o game ou que não se aprofundaram na mitologia do título, como é o meu caso.

Acredito que esse foi o maior acerto que a Netflix, a Riot Games e a Fortiche Productions  —  estúdio responsável pelo projeto  —  fizeram com Arcane: não produzir apenas um programa para os fãs de LOL, mas para todas as pessoas. É óbvio que aqueles que conhecem a obra vão pegar as referências e também terão uma noção maior do que está acontecendo naquele mundo, mas, até mesmo esses fãs podem ser surpreendidos pela trama, pois a história apresenta personagens inéditos na saga e altera algumas partes das origens de certos personagens — ou seja, a surpresa acontece tanto para jogadores quanto para o público geral.

Falando em personagens, se tem algo que nessa série brilha são neles. Cada personagem em Arcane é diferente um do outro e é impossível não se apegar ou se identificar com algum deles. Todos foram feitos com o maior cuidado e carinho do mundo, as personalidades e as motivações são bem desenvolvidas e exploradas, e conseguimos entender os motivos daquelas atitudes. Algumas escolhas não estão totalmente certas e erradas, sempre há uma contextualização por trás das ações. Nada é preto e branco em Arcane. 

Outro ponto que faz os personagens serem tão únicos são os designs deles. O visual de cada um é ímpar, as aparências são cheias de vida e originalidade, nenhum estilo é igual ao outro  —  até mesmo os de personagens secundários e terciários  —  o trabalho que a Fortiche fez na caracterização foi de extrema maestria. Além disso, apenas com os visuais, nós conseguimos captar um pouco da personalidade dos personagens. 

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História e relacionamento das irmãs Jinx e Vi é o grande destaque da animação. Foto: Divulgação/Riot Games

A minha personagem favorita foi a Vi. Particularmente, gosto mais de personagens impulsivos, que protegem os entes queridos, ajudam as pessoas e que querem justiça. Fora o fato dela ser uma excelente lutadora. Todas as sequências de ação com a Vi são espetaculares. Na verdade, as lutas em geral são épicas e incríveis. Quando os personagens estão lutando, sentimos os impactos dos golpes e ficamos cativados com a troca de socos que está rolando em tela. Os confrontos não são plastificados, igual em outros projetos.

Os cenários de Arcane não ficam para atrás dos designs dos campões. Do mesmo modo que as aparências, os locais onde acontece a animação são deslumbrantes e cheios de vida. As cores das cidades conseguem passar a atmosfera do ambiente antes mesmo do público conhecê-los. Por exemplo, Piltover é uma cidade com cores claras, quentes e vivas que mostram como a zona é super bem desenvolvida e organizada, basicamente, uma Utopia. Enquanto Zaun é sempre demonstrada com cores mais escuras e frias que expõem o estado precário do povo que vive lá, uma espécie de Distopia.

Um outro ponto que acho interessante é na duração dos episódios. Em média, os capítulos de Arcane duram entre 40–50 minutos, o que é um tempo considerado longo para uma animação, já que o padrão adotado entre as produções do estilo é de 24–30 minutos. Entretanto, esse padrão vem mudando nos últimos tempos. A série animada Invencível e o primeiro episódio de Star Wars: The Bad Batch também adotaram a duração de 40 minutos e essa tendência, acredito eu, será cada vez mais comum em animações.

Não acho que isso seja ruim, acredito que até seja melhor. Com uma duração maior, é possível desenvolver mais os personagens e avançar no enredo com mais tranquilidade. Não estou dizendo que animações com cerca de 20 minutos não fazem isso, muito pelo contrário, temos excelentes exemplos de desenhos que, com esse tempo, conseguem trabalhar bem na história e nos personagens, como é o caso de She-Ra e as Princesas do Poder, Star Wars: Clone Wars, Justiça Jovem e demais outras. Até mesmo Steven Universo, que tem 10 minutos por capítulo, trabalha bem o elenco que tem em um curto tempo.

Arcane
Dublagem brasileira de Arcane é um dos grandes pontos fortes da animação. Foto: Divulgação/Riot Games

O que quero dizer é que dependendo da trama a ser contada, é válido a animação ter um tempo além do padrão 20–30 minutos. Com Arcane, essa decisão foi excelente. A narrativa é trabalhada aos poucos e gradativamente, para que possamos compreender e entender as motivações dos personagens e digerir algumas atitudes. O ritmo que a série tem para com isso é perfeita, pois em nenhum momento temos a sensação de lentidão e “encheção de linguiça” nos episódios, muito pelo contrário. Os capítulos são muito bem divididos em momentos de ação, desenvolvimento de lendas, contextualização de mundo e pura apreciação. Além da excelente trilha sonora, que aparece nos momentos pontuais para engrandecer ainda mais as cenas com maior peso emocional.

Depois de vários elogios para a Riot Games e para o estúdio Fortiche Productions, também é preciso enaltecer a dublagem brasileira, que fez um trabalho impecável com os personagens. Vários dubladores das lendas de LOL retornam aos respectivos papéis e qualidade da atuação está excelente. Apenas um ou outro dublador não conseguiu interpretar o personagem na série, mesmo assim, as novas vozes realizaram um excelente trabalho.

No fim, afirmo com tranquilidade que Arcane é a melhor animação de 2021. Eu, que não conheço nada do universo de League of Legends, fiquei encantado com a mitologia, com os excelentes personagens e com as histórias que a franquia tem. Tenho toda certeza que os fãs do jogo devem ter amado o que a Riot Games e a Fortiche fizeram com a produção. É uma carta de amor para aqueles que conhecem aquele universo e o potencial que ele tem, e uma carta de apresentação para as pessoas que nunca ouviram falar no título ou que não tiveram vontade de se aprofundar na lore. 

Sem dúvidas, estou muito ansioso para a segunda temporada de Arcane e estou mais empolgado ainda para ver os novos personagens que irão aparecer na série, como as pontas soltas serão resolvidas e o que aconteceu com as lendas após o final do último episódio — que foi surpreendente, emocionante e impactante.