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Fobia – St. Dinfna Hotel é uma confortável e macabra estadia

Primeiro jogo do estúdio brasileiro Pulsatrix tem tudo para se tornar referência no cenário nacional

Fobia – St. Dinfna Hotel, disponível no dia 28 de junho de 2022 para PC, consoles PlayStation (PS4 e PS5) e consoles Xbox (One e Series S|X), é um game de survival horror em primeira pessoa que prioriza a imersão do jogador e a resolução de quebra-cabeças para resgatar sentimentos incrustados em jogos clássicos do gênero. É notória a inspiração do pessoal do Pulsatrix Studios em games como Silent Hill, Outlast e, principalmente, Resident Evil para elaborar uma experiência misteriosa e aterrorizante. 

Com intensos elementos de backtracking, isto é, o incentivo ao retorno a áreas previamente exploradas, Fobia funde uma gameplay baseada na tensão de não saber o que o próximo corredor aguarda com uma narrativa interconectada, sonorizada ao fundo por tiros e por uma belíssima trilha sonora original. Faça check-in no St. Dinfna Hotel e conheça mais sobre Fobia nos próximos parágrafos. 

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Ninguém pra fazer o check-in ou carregar as bagagens. Foto: Gustavo Maganha

Anotações e distorções

O Hotel de Santa Dinfna fica em Treze Trilhas, município fictício e com aspectos interioranos, onde paira um sentimento de isolamento e misticismo que é reforçado por eventos inexplicáveis observados na região. Um jovem jornalista, Roberto Leite Lopes, parte com seu caderno de anotações em mãos para investigar os relatos sinistros do hotel, em uma tentativa de revelar uma grande história. 

Entre organizações misteriosas, eventos distorcidos e muitos enigmas, a narrativa de Fobia desenvolve-se sob o contexto geral que circula os personagens, optando por não focar de forma explícita em apenas uma figura. Ao chegar e deparar-se com circunstâncias irreais, Roberto entra em uma obsessão por saber o que está acontecendo e acaba compartilhando essa angústia com quem joga. Apesar de não ser carismático ao ponto de gerar empatia, o protagonista é surpreendentemente complexo. O repórter é imprudente e curioso, tal qual um jornalista novato, mas também é humano: xinga, fica frustrado e reage de forma desesperada às bizarrices que observa.

Inseticida não resolve nesse caso. Foto: Divulgação/Pulsatrix Studios

Além de te conectar com Roberto para dividir o desejo de entender os acontecimentos do St. Dinfna Hotel, os desenvolvedores usam o ambiente para desenrolar o enredo de forma sutil e inteligente. Salas ensanguentadas após certa ação, objetos em lugares trocados, rastros de sangue, iluminação parcial e gravuras nas paredes e tetos são alguns dos elementos que instigam a dúvida em todos que têm a coragem de pisar no recinto destruído.

O ritmo narrativo é outro ponto importante. Fobia possui seções que enfatizam a trama e reativam os questionamentos do player. Cenas de perseguição e cinemáticas em momentos específicos colaboram para arquitetar um projeto pensado em não ter a história escrita somente em documentos e colecionáveis, mas também em anotações enigmáticas sobre as experiências vividas por Roberto.

Por alimentar a dúvida em todos os momentos, o game mantém a fidelidade no subjetivo. A sensação que fica é a de que a história, por mais confusa e fragmentada que seja, não necessita de uma resposta exata. Não é muito sobre saber o que é real, mas sobre ter curiosidade (e coragem) suficiente para vasculhar mais um cômodo e descobrir mais um pedacinho do já instaurado caos.

Parece meu caderno no tempo de escola, só que mais organizado… E mais limpo. Foto: Gustavo Maganha

Investigação armada

Por ser um survival horror, Fobia possui mecânicas de combate que detêm boa parte da experiência. A perspectiva em primeira pessoa permite um tiroteio mais preciso, mas não há muita estratégia envolvida pois a quantidade de inimigos é limitada. O fato de não ser possível atirar sem mirar acaba frustrando um pouco em momentos mais apertados, mas nada se compara ao sistema de cura, pois o protagonista só pode se curar parado e isso rompe a vantagem de movimento contra os monstros. É entendível o apelo ao realismo e ao uso da cura como algo emergencial e improvisado, mas em determinadas ocasiões que envolvem perseguições, a mecânica prova-se um empecilho. 

Apesar de ser um pouco lenta, a cadência dos confrontos é acompanhada pelos oponentes, o que equilibra as situações de tensão. O principal adversário, uma monstruosidade humanoide, possui o coração exposto como ponto fraco e representa a única ameaça real do jogo, sem contar os chefões. Falando dos chefões, há personalidade nos embates e todas as lutas são justas e respeitam as limitações da própria gameplay, recompensando no quesito dificuldade quem teve a determinação de investigar cantinho por cantinho do hotel pra ter mais munição na hora da briga.

O arsenal é satisfatório, mas completá-lo é uma tarefa opcional. Dá pra passar batido por uma arma importante ou ficar em dúvida de como alcançar outra. É possível coletar cubos de formatos incompreensíveis escondidos pelos cenários para melhorar diversos atributos dos equipamentos, mas quem joga tem que optar por customizar de maneira eficiente devido à escassez. Sobre ausência, munição também está em falta no St. Dinfna Hotel, mas apenas para quem decidir não explorar com afinco. A genialidade na distribuição de munições em Fobia é algo fascinante, que me coagiu a vasculhar até a última gaveta de todas as cômodas e armários possíveis.

Se esse aí falar que tem coração frio, mentiu! Foto: Divulgação/Pulsatrix Studios

Hospedagem alternativa

Utilizar elementos de diversos outros survival horrors de sucesso não impediu Fobia de trazer originalidade ao St. Dinfna Hotel. É fácil afirmar que o título do Pulsatrix Studios é um dos jogos mais criativos que temos no mercado, pois usa o próprio game design e seus desdobramentos para criar uma obra dinâmica, que surpreende a todo instante com detalhes e nuances muito bem colocados.

A exploração, por exemplo, baseia-se no backtracking, guiando quem joga a áreas já exploradas por obrigação ou opção. Esse retorno tem a monotonia interrompida por ilusões, um apagar de luzes repentino, barulhos no ambiente ou até objetos caindo para o apavoro de quem controla Roberto. Tudo parece pensado e posicionado de maneira astuta para alertar e lembrar de que o território é hostil e imprevisível.

Outro destaque é a câmera fotográfica que o jornalista recebe. Capaz de conectar-se com uma realidade alternativa por meio do visor, a ferramenta é o ápice da engenhosidade na construção de cenários. É possível usar a câmera para acessar áreas marcadas por um símbolo de mão, liberando novos corredores, versões diferentes de uma mesma sala e até recipientes com tesouros.

Uma outra perspectiva de uma realidade amedrontadora. Foto: Divulgação/Pulsatrix Studios

A proposta é utilizar o instrumento somente para a resolução de quebra-cabeças, mas depois do primeiro susto na outra realidade, Fobia aplica um conflito de sentimentos entre medo e curiosidade. Você teme usar a câmera e se deparar com algo grotesco ao mesmo tempo em que precisa saber porque determinada porta tem um aviso de “não entre” gravado em sangue. São momentos como esse que misturam o jornalismo curioso e determinado do apavorante medo de bater as botas.

Por fim, com exceção dos muitos cofres e objetos que dependem de combinações numéricas, Fobia tem uma variedade cativante de quebra-cabeças. De um cubo multifacetado a pinturas medievais e sequências de código em tempo real, todo novo obstáculo é um inédito desafio que te incentiva a usar anotações, ambiente e até mesmo a pura lógica para superá-lo. Durante minha jornada de sete horas pelo St. Dinfna Hotel, nenhum puzzle impediu meu progresso, evidenciando um cuidado do pessoal do Pulsatrix em construir algo tão desafiador quanto divertido. 

A impressão que ficou após terminar Fobia – St. Dinfna Hotel foi a de que, apesar de ter ido e voltado dos corredores e salões tantas e tantas vezes, ainda não sei da metade dos segredos que o jogo esconde.

Um elegante puzzle com uma elegante trava que esconde um elegante tesouro. Foto: Divulgação/Pulsatrix Studios

Conclusão

Fobia – St. Dinfna Hotel representa um marco na indústria brasileira de jogos independentes. É um survival horror que não tem receio de se inspirar em franquias famosas do mercado ao mesmo tempo em que traz toda uma bagagem do Pulsatrix Studios para criar uma experiência que jamais deixa de ser única. 

Um combate cadenciado até demais e um sistema de cura estranho não ofuscam uma enigmática e macabra história, envolta em quebra-cabeças criativos e que desafiam o jogador a ir além. Usar uma câmera para caminhar entre dois mundos é a matéria de primeira página que todo repórter deseja, ao preço de conseguir enfrentar o sentimento de tensão constante.

Com uma campanha inicial de 7 a 9 horas de duração e contando com a opção de New Game+, Fobia – St. Dinfna Hotel assume fácil um pódio no cenário nacional ao lado de Chroma Squad e Dandy Ace. É uma produção marcante, corajosa e é perceptível o cuidado com cada detalhe e referência. 

Fobia é recomendado para todos os amantes de survival horror e para todos que desejam apoiar a indústria brasileira de jogos, que está mais criativa e talentosa do que nunca. Dia 28 de junho de 2022 marca o início de uma jornada de sucesso para o Pulsatrix Studios. Uma que teve a passada inicial mais promissora de todas!

A cópia do jogo foi fornecida pela assessoria de imprensa para produção de review

PRÓSCONTRAS
Ambientação apavorantePouca estratégia nos combates
Puzzles únicos e criativosSistema de cura ruim
Trilha sonora original
Detalhamento impecável
Survival horror bem elaborado
REVER GERAL
História
Gameplay
Gráficos
Puzzles
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Jornalista. Redator de games no The Squad. Acredita no desenvolvimento da indústria nacional de jogos independentes e vai lutar muito pra isso acontecer. Pode ser encontrado no Twitter falando sobre... Games. Só fala sobre games mesmo.

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