Com menos de 10 anos de existência, a heroína Ms. Marvel já ganhou uma adaptação no Universo Cinematográfico Marvel. Mesmo sendo nova, o carisma da personagem e suas ótimas histórias foram o suficiente para conquistar o público nas HQs. Agora, a Marvel Studios replica a mesma fórmula de sucesso dos gibis na série solo de Kamala Khan, que já se encontra completa no Disney+.

Ao longo de 6 episódios, os fãs da Marvel não terão apenas a famosa jornada da heroína, em que a personagem ganha incríveis poderes e agora precisa usá-los da maneira correta para proteger as pessoas e impedir o mal. Aqui, também tem destaque a imersão na cultura muçulmana. O aprofundamento nos costumes muçulmanos, a chamada à aventura e o grande carisma da protagonista fazem com que Ms. Marvel seja uma das melhores produções da fase 4 do UCM.

Mesmo com alguns deslizes, muito por causa da baixa quantidade de episódios e a necessidade de implementar os aspectos Marvel no seriado, ainda assim o programa consegue entregar uma trama divertida, momentos emocionantes e bons personagens. Nas linhas a seguir, leia a crítica completa da série de Ms. Marvel.

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Ms. Marvel
Iman Vellani a jovem protagonista Kamala Khan no seriado. Foto: Divulgação/Marvel

Assim como Cavaleiro da Lua, Ms. Marvel aproveita a falta de conexão com o resto do UCM para contar a história que tanto deseja. A ausência de amarras, exceto pelo fato da protagonista ser uma grande fã dos Vingadores e pela pequena presença de uma organização, permite que as situações apresentadas fluam de uma maneira bem natural, principalmente a evolução da Kamala como personagem. Contudo, apesar da organicidade e do ótimo ritmo da série, ela ainda falha nos momentos em que precisa desenvolver mais os antagonistas. Todas as partes que os rivais estão em cena são bem apressadas e não são tão naturais quanto todo o resto mostrado. Parece que os vilões estão ali como uma obrigação e não como uma característica importante para a trama — isso é bem perceptível pelo modo que o roteiro os trata, é preguiçoso.

Mas, por incrível que apareça, se não houvesse antagonistas e nem situações de perigo, o seriado seria muito mais interessante. O crescimento e a empolgação da Kamala nesse mundo de super-heróis, o excelente aprofundamento na cultura muçulmana e as dinâmicas da adolescente com seus amigos e familiares são bem mais prazerosas e relevantes de assistir, porque ali a trama realmente tem algo que quer contar e mostrar para o público. As melhores partes, na minha opinião, são quando Ms. Marvel explora a cultura muçulmana, que no Ocidente não é tão valorizada, divulgada e respeitada quanto outras culturas. Nesses momentos vemos uma grande qualidade técnica e artística, tanto pelos atores em cena, quanto pela maneira que as cenas foram representadas pelos diretores e pelos demais profissionais da produção. A oportunidade por apresentar a rica cultura muçulmana não é desperdiçada em momento algum. Ela é totalmente transbordada para nós.

Conhecer um pouco mais sobre as tradições, comidas, festividades e expressões foi bastante enriquecedor para mim e despertou a minha curiosidade para descobrir outras obras muçulmanas, diferente de Cavaleiro da Lua, que optou por uma abordagem mais simples.

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Ms. Marvel
Ms. Marvel traz ao centro a cultura e tradições muçulmanas à série. Foto: Divulgação/Marvel

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Além disso, o seriado também brilha quando explora as amizades e relações familiares, e cada uma funciona de uma maneira diferente. Com sua mãe, Kamala precisa ser mais disciplinada, já que sua criadora é uma mulher rígida que quer o bem da filha, mas peca pelo excesso de cobrança; com seu pai, a jovem ganha mais liberdade para ser quem é, podendo até fazer algumas brincadeiras; e com seu irmão mais velho, a protagonista sabe que pode contar com o apoio e ajuda dele. Mas é com seus dois amigos, Bruno e Nakia, que a personagem pode ser realmente quem ela é: uma adolescente, nerd, aventureira e destemida. A grande maioria desses vínculos vai amadurecendo e intensificando conforme a narrativa cresce, tendo momentos bonitos e emocionantes que conseguem arrancar uma lágrima dos olhos. No entanto, pela falta de tempo que o seriado tem, a história precisa priorizar com quem a Kamala vai interagir mais, o que é uma pena, já que todas as dinâmicas acima são ótimas, mas nem todas atingem o real potencial que tinham.

E todos esses aspectos citados nos parágrafos acima funcionam, graças às habilidades técnicas dos diretores e dos outros profissionais, além do fenomenal elenco de Ms. Marvel, principalmente Iman Vellani, que vive a protagonista. Mesmo sendo um dos seus primeiros trabalhos, a jovem atriz entrega uma ótima atuação e consegue capturar toda a essência de Kamala e transportá-la para o live-action. O fato de Iman ser realmente uma fã da Kamala Khan na vida real, fazendo até cosplay da heroína, agrega e engrandece o talento da artista. Os outros atores, Matt Linz (Bruno), Zenobia Shroff (Muneeba – mãe de Kamala), Mohan Kapoor (Yusuf – pai de Kamala), Yasmeeen Fletcher (Nakia) e outros também estão excepcionais em seus respectivos papéis e impulsionam ainda mais Iman na atuação. Talvez um ponto negativo esteja nos atores que interpretam os vilões, como o roteiro com eles é fraquinho, acredito que eles não conseguiram demostrar todas as suas habilidades.

Em relação às sequências de ação, elas não tentam ser megalomaníacas e épicas como em outras produções do estúdio, e o fato da direção apostar na simplicidade é o que torna as batalhas divertidas e plausíveis. O que mais chamou a minha atenção nessas cenas foi o fato de Ms. Marvel usar os seus poderes para proteger as pessoas e a si mesma, ao invés de tentar derrotar os inimigos. Como ela está em início de carreira, é muito mais comprável o fato dela querer escapar da situação do que tentar enfrentá-lo, mesmo sendo uma entusiasta do mundo heroico.

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Ms. Marvel
Diretores e atores de Ms. Marvel são pontos altos da série. Foto: Divulgação/Marvel

No fim, o que mais me agradou em Ms. Marvel é a simplicidade do seriado, mesmo com a complexidade que o Universo Cinematográfico Marvel se tornou. A jornada de descobrimento e crescimento de Kamala Khan como pessoa e heroína, entendendo o seu lugar no mundo, ao mesmo tempo em que se conecta com suas raízes, é o ponto mais alto de toda a produção. Se a produção quisesse apenas desenvolver o lado mais cultural e pessoal da personagem, sem aquela demanda de conectá-la a algo maior, o resultado ainda teria sido extremamente positivo.

São nos momentos em que as características Marvel estão presentes em que presenciamos uma queda perceptível de qualidade. Isso me faz pensar que talvez seria muito mais interessante pro estúdio deixar os roteiristas e diretores livres para contarem a história que desejam. É claro que uma liberdade total, como no caso de Taika Waititi em Thor: Love and Thunder, talvez não seja o ideal, mas uma mão menos exigente seria bem-vinda. E a Marvel Studios está oferecendo mais autonomia para os seus cineastas e escritores, porém ela ainda não encontrou a harmonia perfeita. Ms. Marvel sofre muito menos desse mal, mas ainda sofre.

Portanto, a série da jovem heroína paquistanesa Kamala Khan é uma das melhores produções da Fase 4 do estúdio. Com a proposta de contar a trama de uma adolescente que ganha poderes e agora precisa entender o que fazer com eles, o seriado conquista o público com o carisma da protagonista, com sua boa história e com o rico aprofundamento da cultura muçulmana. Apesar de alguns vacilos, como a falta de vilões mais interessantes, a produção entrega uma aventura emocionante e divertida ao apostar no simples.

Sabemos que Kamala Khan retornará em The Marvels, sequência de Capitã Marvel, mas, depois da estreia do filme, espero que a Marvel Studios explore mais da personagem em uma segunda temporada e não apenas em longas-metragens .