Depois de dois anos longe do público por causa da pandemia de COVID-19, o BIG Festival voltou com muitas mudanças para a edição de 2022. Junto do espaço maior e da cobrança de ingressos, o evento mudou de nome, optando por tirar os jogos independentes brasileiros do foco e abranger mais sua abordagem.

Dos dias 7 a 10 de julho, visitantes do Expo São Paulo puderam conferir as atrações, palestras, estandes e eventos do Best International Game Festival em um ambiente mais adequado, mas que ainda deixou o gostinho de que faltava algo.

Já considerando todos os importantes prêmios que visam virar o holofote a games independentes de grande qualidade, nacionais ou não, confira nos parágrafos abaixo uma opinião sincera sobre o que o BIG representa para a indústria brasileira e como há (e muita) possibilidade de melhora.

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Pequena seção com jogos de parceiros variados no BIG 2022. Foto: Gustavo Maganha

Estruturalmente falho

Lá em 2019, o BIG cometeu um grande erro: realizou um evento gratuito e, sobretudo, interativo em uma das mais movimentadas avenidas da capital paulista. O Club Homs espremeu esperanças e feedbacks, proporcionando uma caótica representação do cenário nacional de jogos indies. Com outro objetivo em mente, a edição de 2022 escolheu o Expo São Paulo para permitir que os visitantes, que pagaram de R$ 40 pela inteira e R$ 20 pela meia-entrada, caminhassem sem necessariamente esbarrar em mochilas alheias. 

O principal problema é que o Big International Game Festival manteve toda a estrutura de 2019, levando notebooks de qualidade abaixo da média, controles paralelos e implementando um desnecessário cadastro para poder testar os jogos que competiam nas categorias do evento. Por mais de três ou quatro vezes, em estações de teste diferentes, não consegui jogar o que queria, sendo barrado pela infinidade de erros de autenticação e inicialização nos computadores. Quando tudo dava certo, o atraso nos comandos era tão grande que a experiência não valia a pena.

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Estandes para teste dos principais games indicados às premiações do BIG 2022. Foto: Gustavo Maganha

Felizmente, o mesmo não aconteceu com games dos estandes do PlayStation, Nintendo e Xbox, que trouxeram uma seleção de títulos de sucesso já lançados. Aqui, ainda que não exclusiva ou necessariamente nova, a experiência era minimamente satisfatória.

Testar os games de responsabilidade do BIG reviveu uma lembrança amarga da edição de 2019, em que um notebook desligou por superaquecimento rodando o excelente “Burning Daylight”. Ao menos, naquela ocasião, não haviam problemas para iniciar os jogos.

Upgrade nas palestras

Saindo de um tópico de justificáveis críticas para um com merecidos elogios: o acesso às palestras do BIG melhorou exponencialmente. Antes, a comunicação e divulgação era estranha e a entrada nas discussões era limitada ao ponto de obrigar o público a assistir algum tipo de reprise, quando essa era disponibilizada. Na edição de 2022, apesar da exclusividade de reservar lugares ser um benefício de ingressos premium, os auditórios estavam de portas abertas para receber qualquer interessado caso houvesse lugares disponíveis. 

O resultado foram muitas palestras assistidas, com personalidades importantes da indústria nacional, desde jornalistas e assessores a desenvolvedores e convidados especiais. Foi possível até assistir à conferência de Shuhei Yoshida, que falou sobre a iniciativa PlayStation Indies, comentou sobre novos planos da marca com os desenvolvedores menores e mostrou fotos inéditas de sua carreira no mundo dos games.

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O estande dedicado aos games mobile era o único que funcionava de forma satisfatória nos teste. Foto: Gustavo Maganha

No geral, ainda que não seja de interesse da maioria do público, é importante saber que as palestras estavam disponíveis para todos com uma facilidade de causar espanto. Não é todo mundo que vai reservar um tempinho para ver a programação do evento e se planejar para garantir um bom lugar, mas os que o fizeram saíram satisfeitos com um conteúdo enriquecedor.

Jogados de canto

O grande valor de eventos como o BIG é a oportunidade de conhecer projetos nacionais de valor criativo imensurável, que estão escondidos em trabalhos de faculdade e pequenos estúdios de todas as regiões do país. Apoiar jogos independentes, maior premissa anterior do evento, significa acima de tudo providenciar um ambiente confortável para todas as equipes, não só para finalistas.

Em meio ao caos das estações de teste do games indicados, observava-se uma ponta do Expo Center Norte com dezenas de desenvolvedores espremidos em pequenos “estandes”. 

Cantinho que reuniu jogos independentes e incentivou a interação público/desenvolvedor. Foto: Gustavo Maganha

Filas para testar diferentes jogos se trombavam em uma tentativa de prestigiar quem está começando ou quem tanto precisa de ajuda para ingressar de vez no cenário. Ao meu ver, jogar de canto quem sustenta a ideia central do evento deve ser motivo de imensa tristeza.

Apesar de tudo, as melhores conversas e jogos foram encontrados nesse cantinho, pequeno e abarrotado, recheado de olhos brilhantes e de concepções inovadoras e engenhosas. Sem a desculpa de não haver espaço, restou a aceitação de tamanha injustiça.

Fazendo a diferença

Em contraste ao único estande montado exclusivamente para falar sobre NFTs, criticado até durante uma das palestras do evento, alguns parceiros do BIG 2022 buscaram adicionar positividade ao tratar assuntos realmente importantes.

A DX Gameworks, em parceria com a AbleGamers Brasil, montou um espaço dedicado a levar acessibilidade a uma seleção de jogos independentes. Com controles adaptáveis, audiodescrição dos games por QR Code e até um atendimento em libras, representaram um pequeno alívio para jogadores com alguma necessidade especial que procuravam acolhimento no evento. Uma pena as estações de teste do próprio BIG não caminharem no mesmo ritmo.

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A DX Gameworks trouxe acessibilidade e diversão em um espaço agradável. Foto: Gustavo Maganha

Ainda, a Magalu também esteve presente e reservou um local aberto para conversas com desenvolvedores e estúdios procurando parcerias. Não foram observadas trocas durante o período de permanência na feira, mas a existência do ambiente destinado já é motivo de aplausos.

O que pode melhorar?

Para começar, o BIG deve proporcionar uma experiência satisfatória para testes de jogos, em um panorama geral. Isso significa: computadores melhores e dedicados, controles bons, sistema de testes sem falhas de autenticação etc. Foram três anos de um hiato preparatório que angariou patrocinadores, mas não deu um jeito nos notebooks.

Seguindo, se o foco do evento ainda são os jogos independentes, um local que seja digno da reputação criativa da indústria nacional deve ser mais do que obrigatório. Seria possível trazer o dobro de estúdios menores e prestigiar o trabalho de muito mais gente.

Trazer atrações mais interessantes e chamativas ajudaria também o evento. Para quem sabe o que procurar, o BIG pode ser uma curtição. Mas para um responsável levando o filho para se divertir, talvez perdure um sentimento de vazio ao andar por tão poucas atrações.

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Pode parecer cômico, mas os consoles PS5 não estavam ligados. Foto: Gustavo Maganha

Por fim, a recepção com NFTs é negativa. Não adianta negar, não adianta insistir. Ainda que “ignorável”, o assunto é maçante, elitista e não é o futuro dos games. Pelo contrário, é uma construção fantasiosa e “lucrativa” que estimula a ganância em detrimento do sentido principal dos jogos: diversão.

Em três anos fora de cena, o BIG cresceu de tamanho e de importância. Nunca houve um momento em que a indústria nacional precisasse de um lugar pra gritar bem alto o potencial que tem. Infelizmente, ainda falta muito conhecimento para que o BIG comece a ouvir esse grito com paciência, atenção e carinho.

Que a edição de 2023 leve embora os NFTs e traga mais amor a todos os jogos independentes.