Já não é surpresa para ninguém que a Capcom voltou a viver um ótimo momento no mundo dos games. Desde a bem-sucedida reimaginação de Resident Evil 2, os fãs de longa data não poderiam estar mais ansiosos pelos próximos passos desta empresa, que é responsável pela formação de muito do que somos hoje em dia. Resident Evil 3 seria o nome mais lógico para dar continuidade ao ímpeto de grandes lançamentos.

Anunciado em 10 de dezembro de 2019 e com lançamento previsto já para o dia 3 de abril de 2020 para PC (Steam), PlayStation 4 e Xbox One, Resident Evil 3 segue a mesma receita da reimaginação de Resident Evil 2, mesclando nostalgia na dose certa com uma experiência completamente renovada. Isso significa que os fãs reconhecerão cenários, itens, inimigos e personagens do título original do PlayStation, mas tudo com uma sequência narrativa rebuscada e com novidades muito bem-vindas.

Lidar com franquias clássicas, que contam com fãs exigentes, e ao mesmo tempo agradar uma nova geração de jogadores não é uma tarefa fácil, mas confira os acertos e erros deste novo trabalho da Capcom com a nossa análise nos parágrafos a seguir.

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Resident Evil 3 apresenta melhorias visuais sutis, mas está belíssimo em todos os sentidos. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Um maior cuidado com a contagem da história

Baseado no clássico do PlayStation de 1999, Resident Evil 3 estrela Jill Valentine, heroína cuja reputação de “superpolicial” se espalhou após os eventos da mansão Spencer no primeiro jogo da série. O incidente com o Vírus T, na ocasião, fez com que os membros da equipe Alpha da S.T.A.R.S — Special Tactics and Rescue Service — pesquisassem a fundo o envolvimento da gigante farmacêutica Umbrella Corporation, que utilizava o nome de fachada para desenvolver armas biológicas. Ciente de que havia pessoas conspirando contra os seus experimentos, a Umbrella criou uma arma suprema chamada Nemesis especialmente para apagar evidências: os membros da S.T.A.R.S que estão em Raccoon City para a investigação.

Além de Jill, o jogador também assume controle de Carlos Oliveira em diversos momentos da trama. Ele é integrante do U.B.C.S. — Umbrella Biohazard Countermeasure Service — e recebeu ordens para resgatar civis juntamente com outros soldados veteranos. A relação entre a dupla de protagonistas não tem um início amigável por Jill ter pleno conhecimento de que a maior responsável por tudo é a própria Umbrella, mas não parece que os seus soldados e funcionários sabem tudo o que está acontecendo.

Levando em consideração as críticas ao game anterior, Resident Evil 3 dispensa múltiplas campanhas e os modos de segunda jornada que se conectam de alguma forma para evitar confusões e furos de roteiro. Embora isso tenha um impacto direto sobre as horas de gameplay, pois o jogo é mais curto do que se esperava e leva aproximadamente cinco horas no seu primeiro zeramento, a história tem os seus eventos muito bem desenvolvidos e amarrados, mesmo quando ocorre uma troca de personagem.

Apesar de o grande destaque da trama ser Jill Valentine e seu impasse com o perseguidor implacável, Carlos foi tratado com bastante carinho pela Capcom e tem quase a mesma quantidade de horas de gameplay que a heroína. A sua participação é muito mais interessante do que no game original e muitas surpresas aguardam pelos fãs.

Resident Evil 3
Várias figuras icônicas aparecem na reimaginação de Resident Evil 3. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Não se mexe em time que está ganhando? Não é bem assim! 

Mais uma vez, o motor gráfico proprietário RE Engine mostra as suas capacidades. Os gráficos não têm uma melhoria gritante se comparados aos de Resident Evil 2, tanto que os jogos compartilham os mesmos requisitos mínimos e recomendados no computador, mas é notável que houve otimizações, principalmente nos modelos dos personagens.

Houve melhorias nos efeitos de iluminação, sobretudo pelo fato de que o jogo agora explora cenários mais abertos como as ruas de Raccoon City. Há também fluidez na movimentação dos personagens e, principalmente, expressões faciais de maior qualidade, pois agora estão muito mais naturais e transmitem exatamente o que os personagens estão sentindo.

No campo da jogabilidade, também houve adições que melhoram a experiência. Jill Valentine e Carlos Oliveira se movimentam de formas completamente diferentes e contam com as suas próprias habilidades. A heroína importa a sua esquiva do título original, que pode ser utilizada no momento exato em que é atacada para realizar uma finta e mirar instantaneamente no ponto fraco do inimigo com um efeito em câmera lenta. Já Carlos é capaz de desferir um forte soco, também no momento em que estiver prestes a ser atingido, para garantir espaço e finalizar um inimigo no chão.

Essas mecânicas de escape não são tão fáceis de dominar e, por isso, não desbalanceiam a dificuldade do jogo, pois há inimigos com padrões de ataque difíceis de lidar. Elas podem ser úteis em um momento em que o próximo golpe será fatal, mas o risco por utilizá-las existe e não deve ser subestimado.

Os cenários também seguem a proposta do título anterior. Vários caminhos se conectam de maneira natural e permitem que o jogador volte com um novo item, adquirido momentos depois, para abrir travas e portas que podem ter ficado para trás, mas pode ser frustrante avançar na história e não conseguir voltar para algum ponto específico depois. Os players com perfil mais explorador são os grandes beneficiados e checar cada canto é uma das grandes diversões do game.

Resident Evil 3
Nemesis é implacável, mas a Capcom foi tímida e limitou os encontros “livres” com a criatura. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Nemesis não é tão ameaçador quanto poderia

Entramos agora em um dos principais tópicos sobre o jogo: o próprio Nemesis. Não tem como passar pela análise sem dedicar uma sessão inteira ao perseguidor, que é sim mais ameaçador que o Tirano de Resident Evil 2. No game anterior, o “Mr. X” surgia em um momento em que o jogador já estava relativamente acostumado com o level design e tinha que improvisar rotas e tomar decisões rápidas para desvencilhar. Ele era “honesto” e não localizava o jogador através das paredes: ele apenas andava pelo cenário e seguia os sons em direção à sua presa.

No entanto, em Resident Evil 3, Nemesis sequer dá tempo para respirar quando entra em cena. Além de surgir nos estágios iniciais do game, a arma suprema da Umbrella corre em direção ao jogador, utiliza tentáculos para agarrá-lo à longa distância, manuseia armas, faz grandes saltos e aparece repentinamente na sua frente com o único objetivo de eliminá-lo. Isso parece muito desafiador na teoria, mas o jogador que explorar o cenário minimamente não terá dificuldades para derrubar Nemesis e isso pode trazer decepções aos que esperavam confrontos mais intensos. Lembra da versão de demonstração do game? Aquele trecho de Raccoon City é basicamente um dos únicos em que o jogador explora o cenário e é perseguido pela criatura ao mesmo tempo, sem scripts.

As fases são construídas de modo que o jogador seja equipado com o que é preciso para lidar com a criatura nos encontros “casuais” e, até mesmo na dificuldade Intenso, existe este sentimento de “o jogo poderia não me dar isto para deixar mais difícil”. Uma vez que Nemesis é derrubado, ele pode deixar uma maleta com algum equipamento ou munição para o jogador utilizar. Este também é o momento em que o jogador facilmente entra em alguma zona do cenário em que o Nemesis não aparece e se vê livre dele por um bom tempo.

Resident Evil 3
Nemesis é constante durante a trama e figura em várias batalhas contra chefe. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Os momentos realmente desafiadores são as batalhas contra chefe dedicadas, nas quais Nemesis é muito mais resistente e conta com vários padrões de ataque. A Capcom também não poupou criatividade e apresenta sequências cinematográficas de tirar o folêgo, além de reservar surpresas ao longo da história.

Isso não quer dizer que o jogador não deve passar por apertos contra o monstro: como as cidades são recheadas de inimigos e leva muitos tiros para que eles sejam derrotados, é possível que Nemesis surja em momentos de tensão, quando houver muitos zumbis ao redor. No entanto, os momentos de perseguição deixam um gosto de “quero mais” por serem muito breves. A velha sensação de resolver quebra-cabeças com o monstro na cola simplesmente não existe e o Tirano do game anterior é muito mais interessante neste sentido.

Resident Evil 3
A delegacia de Raccoon City retorna, mas com muitas portas fechadas e caminhos lineares que fazem com que ela passe rapidamente. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Puzzles pouco inspirados e cortes de conteúdo também colaboram para a curta duração do game

Outro ponto que pode desagradar alguns fãs são os quebra-cabeças de Resident Evil 3. Embora seja frequente a demanda de encontrar um item específico que está escondido em outro lado do cenário, protegido por uma outra chave qualquer, as resoluções são muito simples e rápidas. Não existem quebra-cabeças mais elaborados como o das peças de xadrez dos esgotos de Resident Evil 2 e isso tem influência direta na curta duração do game.

A própria delegacia de Raccoon City, que “revisitamos” em determinado momento da história, aparece com várias portas impossíveis de serem abertas, induzindo o jogador a seguir por um caminho linear para coletar os itens necessários. Seria muito mais interessante se os itens fossem espalhados por outros pontos da delegacia — até porque ela é reaproveitada do título anterior —, mas não é o que acontece. Alguns cenários e inimigos do título original também não foram utilizados nesta reimaginação — e os seus próprios puzzles por consequência.

Somado a isso, o jogo apresenta vários cenários com objetivos que exigem o confronto direto com criaturas perigosas. A sua variedade de inimigos é um pouco melhor que a reimaginação de Resident Evil 2, mas ainda assim é inferior à do título original. A abordagem do game é muito mais focada na ação, mas há um bom equilíbrio com aquele receio de passar por cima de um cadáver recém-derrubado e os sustos quando um zumbi aparece pelas costas por descuido.

Ao mesmo passo em que a campanha é curta, ela também é divertida o suficiente para que o jogador explore os outros níveis de dificuldade. Como uma forma de incentivar o replay, há uma moeda conquistada no jogo que serve para desbloquear trajes alternativos, itens de aumento de defesa e ataque e até mesmo armas exclusivas que podem ser carregadas desde o início da jornada. O destaque vai para o modo Inferno, que é desbloqueado após terminar o jogo no modo Pesadelo e que dispõe os itens em pontos diferentes do cenário e torna os inimigos muito mais agressivos e fortes.

A Capcom também parece estar muito confiante de que Resident Evil Resistance, componente online do game, será o suficiente para suprir a carência que os fãs podem sentir, mas entraremos em detalhes sobre este modo em uma outra análise.

Resident Evil 3
Cada cenário conta com os seus próprios perigos em Resident Evil 3. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Talvez a expectativa tenha sido alta demais

Não interpretem errado: Resident Evil 3 é um excelente jogo e carrega muito do que há de melhor em seu antecessor, mas as expectativas podem ter atrapalhado a experiência. Os poucos momentos em que Nemesis persegue o jogador diretamente, falta de quebra-cabeças, corte de cenários clássicos e a curta duração da campanha são definitivamente os pontos mais negativos e que podem decepcionar os fãs mais assíduos.

Já o combate revisado, novas mecânicas de esquiva e a narrativa melhor amarrada são pontos positivos o suficiente para que Resident Evil 3 seja um forte concorrente a jogo do ano. A jogabilidade por si só já é um dos motivos para querer iniciar a campanha mais uma vez, pois ela funciona muito bem e é sem dúvidas a melhor da série ao lado da reimaginação de Resident Evil 2.

Devido às decisões de conteúdo, não será de se estranhar caso haja muitas opiniões controversas sobre o game, então a melhor decisão é jogar em 3 de abril e tirar as suas próprias conclusões.

A cópia utilizada para a produção da análise foi cedida pela Capcom e consistiu na versão para PC.

PrósContras
Jogabilidade revisada e divertida;Curta duração;
Gráficos mais bonitos;Falta de quebra-cabeças;
Narrativa muito bem contada;Nemesis não é tão ameaçador;
Fator replay.Corte de conteúdo do game original.