Não é segredo para ninguém que o Batman é um dos heróis mais populares e queridos da cultura pop. Ao longo dos seus 82 anos de existência, o personagem foi ganhando inúmeras interpretações nas mãos de escritores e roteiristas até se tornar o fenômeno que é. Depois de muitos pontos de vista ao longo do tempo nos quadrinhos, filmes e demais mídias, será que ainda seria possível contar e mostrar para o público uma nova visão do Vigilante de Gotham? A resposta é não. Mas isso não é um problema.

Em Batman, o diretor Matt Reeves não apresentou um novo olhar do Morcego, porém pegou os melhores elementos da mitologia e as melhores visões do herói e dos outros personagens daquele mundo e adaptou da melhor maneira possível com este novo longa-metragem que estreia no dia 3 de março nos cinemas.

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Batman adapta os melhores elementos do Cavaleiro das Trevas nos cinemas. Foto: Divulgação/Warner Bros

Nada de origem do Batman novamente. Aqui acompanhamos o segundo ano de Bruce Wayne como vigilante que, embora não seja um mascarado experiente, também não é um cara sem preparo. A figura do Cavaleiro das Trevas já está consolidada em Gotham: James Gordon, ainda tenente da polícia, já confia no Batman, o povo e a mídia da cidade sabem que tem alguém combatendo a onde de crime e os criminosos têm medo de becos e locais escuros pois o Morcego pode aparecer a qualquer momento.

Tudo isso acompanhado de uma narração de Robert Pattinson que contextualiza o momento atual da metrópole para nós: os crimes estão cada vez mais violentos, o tráfico de drogas e a corrupção estão em alta e vilões não param de surgir. Apesar do herói ser incapaz de estar em todo lugar ao mesmo tempo, o temor que os bandidos têm do símbolo quando o batsinal está aceso é o suficiente.

Mas o mais incrível é que esse pavor não causa efeito em todos. Mafiosos como Carmine Falcone (John Turturro) e Oz Cobblepot — vulgo Pinguim (Colin Farrell) — que estão nesse ramo há anos, sequer se importam com Batman, muito pelo contrário, eles fazem é piadinhas e ironias na presença dele. O respeito dos outros personagens para com o Cavaleiro das Trevas só aparece quando ele mostra com ações, ou melhor, com ação, do que ele é capaz de fazer.

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Dito isso, as sequências de ação são excelentes e de tirarem o fôlego, principalmente o momento com batmóvel. Matt Reeves optou por efeitos práticos, lutas bem coreografadas e pouquíssimos CGI para montar os combates. O público sente os impactos dos golpes que o mocinho dá nos inimigos, são socos e chutes que machucam muito, pois aqui temos um Batman mais violento, que não tem dó da bandidagem, que ainda não se controla porque está completamente imerso e solitário nessa incansável jornada por vingança.

Embora a ação do filme seja espetacular, ela não é o grande destaque do longa-metragem, mas, sim, o lado investigativo do Cruzado Encapuzado — que foi deixado de lado em outras produções do detetive. Em Batman, realmente temos um investigador na história. O Cavaleiro das Trevas utiliza aparatos, como lentes de contato para analisar e gravar tudo o que aconteceu em um determinado ambiente, vai e volta em cenas de crime para procurar por mais dicas e usa apenas o seu intelecto para resolver os enigmas deixados pelo Charada (Paul Dano). Além disso, seus aliados como Alfred (Andy Serkis) e Gordon (Jeffrey Wright) também o auxiliam na aventura ao descobrir pistas que sozinho ele não conseguiria. Nada nos é entregue de bandeja, as reviravoltas da trama e as charadas vamos descobrindo juntos com o Batman, o que nos conecta ainda mais com ele e com o enredo.

Talvez, a única ressalva que tenho é a pouca presença de tela do Bruce Wayne. Robert Pattinson fica como Batman praticamente o filme todo. A produção tem 3 horas de duração e o ator interpreta apenas Bruce Wayne em alguns poucos minutos, talvez 10 minutos no máximo. Com isso, é difícil dizer se Pattinson é um bom Bruce, afinal, seu personagem está focado apenas em vingança e não se importa muito consigo mesmo, como o próprio Alfred ressalta. Como Batman, ele é excelente, Robert captou todas as nuances e trejeitos do herói e entendeu o momento em que ele se encontra atualmente, contudo, como Bruce, é complicado ter alguma conclusão.

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Robert Pattinson entrega um ótimo personagem movido por ódio e vingança. Foto: Divulgação/Warner Bros

Além do vigilante noturno, também temos outros excelentes personagens. O diretor Matt Reeves conseguiu trabalhar, desenvolver e dar destaque para todos os atores do elenco. Apesar de Robert Pattinson ser o grande protagonista, a Mulher-Gato de Zoe Kravitz, o Pinguim de Colin Farrell e o Charada de Paul Dano não ficam para trás.

Sempre que o Pinguim aparece em cena, Colin Farrell rouba o destaque para si. A sua caracterização como Pinguim é algo incrível! A equipe de maquiadores fez um trabalho sensacional ao deixar o ator irreconhecível e há grandes chances de Batman ser indicado às grandes premiações na categoria Maquiagem. Além do ótimo visual, a interpretação que Farrell deu ao mafioso é espetacular. O ator entendeu e soube transmitir com maestria que Oz Cobblepot é um ser excêntrico, brincalhão, inteligente e sagaz. Infelizmente, o nosso querido Pinguim apareceu pouco no filme, mas foi o suficiente para gostarmos dele. Estou bastante curioso para ver como a série do vilão no HBO Max irá representá-lo.

Sobre o principal vilão do longa-metragem, Charada, que antagonista espetacular. Embora Edward Nashton não esteja sempre presente em tela, a sombra do Charada e a ameaça que ele representa pairam durante as 3 horas da obra. Sempre que o ator Paul Dano aparece, sabemos que algo ruim está para acontecer: seja pela trilha sonora que indica isso, pela respiração ofegante do assassino ou como a direção o colocou em cena — o intérprete fez um maníaco muito perigoso e perspicaz, que sabe que é a pessoa mais inteligente (por enquanto) de Gotham e tira sarro dos outros por isso. A mensagem que ele passa é alta e clara e o interessante é como ela atinge de diferentes maneiras os principais personagens da produção e o povo de Gotham.

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Zoe Kravitz como Mulher-Gato está impecável. A atriz fez uma personagem que está para se descobrir como a grande ladra que Selina Kyle é nos quadrinhos. A química entre ela e o Robert Pattinson funciona desde o primeiro momento em que eles se encontram e é muito bacana como o comportamento e a postura do herói mudam completamente quando ela está ao lado dele. A jornada de Selina é tão cativante quanto a do próprio Cavaleiro das Trevas e acredito que o público possa ter mais empatia pela história dela do que a do protagonista, pois, enquanto o plot do Batman é focado nele em descobrir as pistas do Charada e parar a onda de assassinatos que ele está causando, a trama de Selina é algo muito mais intimo e pessoal.

Outro ponto que vale destacar da Mulher-Gato é a maneira como ela luta. Ela é muito mais sutil e mais rápida nos golpes que o Cruzado Encapuzado. Batman opta pela intensa violência nos bandidos, em contrapartida, Selina escolhe uma abordagem mais furtiva, utilizando de poucos golpes para imobilizar os inimigos. Aqui, ela age mais como uma ninja do que o próprio Morcego.

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Química entre Zoe Kravitz e Robert Pattinson é um dos grandes destaques do filme. Foto: Divulgação/Warner Bros

Andy Serkis fez um bom Alfred. Assim como o Bruce Wayne de Robert Pattinson, não tem como falar muito porque o mordomo aparece em momentos pontuais. Apesar de ter aparecido pouco, é com ele e com Bruce Wayne que temos um dos momentos mais lindos e emocionantes do filme.

Como mencionei em outros parágrafos acima, a trama é bem simples e não tem nada de inovador, é o Batman decifrando as pistas do Charada para encontrá-lo e parar com os assassinatos. O grande trunfo é como a história é contada e o desenvolvimento dos personagens. Nenhum dos personagens termina como estava no início da produção, todos têm uma jornada de evolução pessoal e interpessoal, principalmente Batman que entende o que ele precisa ser no fim para Gotham: um símbolo e não um instrumento de retaliação.

A obra é um filme de detetive e para quem não está muito acostumado com o gênero ou que espera um estilo mais voltado para ação pode acabar achando um pouco lento no início, principalmente na primeira hora. Entretanto, conforme os minutos vão passando, o roteiro vai ganhando cada vez mais ritmo e ação, te fisgando por completo.

Sobre cenário e ambientação, Matt Reeves conseguiu criar, na minha opinião, a representação perfeita de Gotham. Uma metrópole fúnebre, gótica, sombria, suja, com poucas cores e com tons de neon em letreiros e em faixadas. Apesar de conhecermos vários locais distintos e diferentes ao decorrer do longa-metragem, alguns com mais vida do que outros, todos eles ainda fazem parte daquela estética gótica criada pelo cineasta. Nada é muito destoante ou exagerado, na verdade, parece que Gotham é realmente uma cidade do nosso mundo.

No fim, com uma história bem contada e escrita, com um elenco e atuações impecáveis e ambiente sombrios, Matt Reeves conseguiu contar uma ótima história do Batman. O diretor e o ator Robert Pattinson captaram e entenderam perfeitamente esse personagem icônico e popular dos quadrinhos e trouxeram uma abordagem que antes não era tão aproveitado nas telas. Foi um filme que me surpreendeu muito mais do que esperava e agora quero ver mais desse mundo que me foi apresentado. Sem dúvidas, se a Warner deixar Reeves completamente livre e no comando para fazer o que quiser, o futuro do Morcego será muito promissor tanto nos cinemas quanto no HBO Max.