Resident Evil Village é o novo capítulo da famosa franquia de terror de sobrevivência da Capcom que dá continuidade aos eventos vividos por Ethan Winters em Resident Evil 7: Biohazard, lançado originalmente em 2017 e que dividiu águas pela sua perspectiva de gameplay em primeira pessoa. Disponível para PC, PS4, PS5, Xbox One e Xbox Series X/S a partir de 7 de maio de 2021, Resident Evil Village chega com a intenção de refinar a fórmula do seu antecessor, ao mesmo tempo que dá passos além para se estabelecer como o jogo de maior primor técnico da franquia. Tive a oportunidade de experimentar o game antecipadamente no PlayStation 5 e você confere, a seguir, tudo sobre o novo lançamento da Capcom.

Este review respeita todas as exigências de embargo da Capcom e não inclui spoilers da história. No entanto, o texto traz o tempo particular de conclusão da campanha e algumas imagens ilustram momentos inéditos.

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Mãe Miranda e seus filhos são a principal ameaça de Resident Evil Village. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Bem-vindo, forasteiro!

Alguns anos após viver um pesadelo na mansão da família Baker e resgatar sua esposa desaparecida, Ethan e Mia vivem pacificamente no interior da Europa e agora têm uma filhinha chamada Rosemary, que ainda é apenas uma bebê. No entanto, a vida pacífica de Ethan rapidamente se transforma em um inferno quando Chris Redfield e sua equipe de soldados realizam um ataque repentino à residência e assassinam Mia Winters a sangue frio. Além dela, a filha Rosemary também era um alvo e Ethan se esforça para impedir o seu sequestro, mas fracassa e desmaia.

Depois dessa sequência inicial chocante, Ethan acorda nos arredores de um vilarejo, no meio da neve, e resolve entrar para pedir ajuda e entender o que está acontecendo. O lugar apresenta sinais de abandono e está infestado por licanos e outras criaturas horrendas à espreita. Os poucos sobreviventes encontrados explicam sobre a autoridade da Mãe Miranda na região, uma espécie de entidade que governa ao lado dos seus quatro filhos — incluindo Lady Dimitrescu e Karl Heisenberg, que foram destacados nos materiais de divulgação do game nos últimos meses.

É isso mesmo que você entendeu: Lady Dimitrescu não é o foco de Resident Evil Village. A mulher vampiresca de quase 3 metros de altura cativou a internet e foi usada como parte de uma campanha de marketing fervorosa pela Capcom, mas o seu seguimento é relativamente curto, com duração de aproximadamente uma hora e meia, e deixa um gosto amargo de “quero mais”.

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Não se deixe enganar: o vilarejo é super intimidador mesmo sob a luz do dia e nenhum lugar é seguro. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Logo de início, fica clara a repetição da premissa de Resident Evil 7: passar por cada integrante da família, em seus respectivos territórios, para alcançar o objetivo final. A diferença fica por conta do escopo de Resident Evil Village, que é muito maior e ambicioso. O vilarejo é um grande cenário interconectado e será visitado repetidas vezes pelo jogador, exigindo a utilização de itens centrais para abrir caminhos, solucionar quebra-cabeças e descobrir vários dos seus segredos.

À primeira vista, o que mais salta aos olhos é a ambientação. Mesmo sob a luz do dia, o vilarejo carrega uma atmosfera pesada e uma sensação de insegurança constante. Cada residência é cheia de detalhes e também conta uma história indiretamente — panela no fogo com sinais de que a família fugiu às pressas, paredes e móveis completamente destruídos por garras, manchas de sangue indicando que corpos foram arrastados etc.

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Os cenários de Resident Evil Village impressionam pelo nível de realismo. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Não restam dúvidas de que este é o ápice do motor proprietário da Capcom, o RE Engine, desde sua estreia em Resident Evil 7. Os gráficos são lindos e fotorrealistas, especialmente em ambientes fechados que têm um cuidado maior com os efeitos de iluminação. Ainda há problemas com eventuais texturas de baixa qualidade, algumas expressões faciais e objetos que carregam ao horizonte, mas nada que cause muito alarde.

A evolução visual já era esperada por este ser o primeiro Resident Evil na nova geração de consoles, mas o resultado é realmente impressionante, especialmente com o efeito de raios traçados (ray tracing) habilitado. Com relação aos recursos do PlayStation 5, o jogo faz um uso bastante modesto do controle DualSense e seu destaque acaba sendo os gatilhos adaptáveis, que se ajustam a cada arma utilizada. O jogo também faz uso do SSD para não apresentar telas de carregamento e do Áudio 3D para proporcionar ainda mais imersão.

Resident Evill Village ainda traz corredores estreitos e brinca com a iluminação para provocar tensão. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Ação e terror na medida certa

Nas últimas décadas, a franquia Resident Evil adotou diferentes posturas e acabou por dividir demais a sua base de fãs, alternando entre jogos focados no terror e outros mais direcionados para a ação desenfreada. Neste novo game, não é exagero dizer que ele traz o melhor dos dois mundos com maestria. Fica claro que o objetivo é agradar gregos e troianos e o resultado é muito satisfatório.

Os trechos de ação têm um gameplay dinâmico e responsivo muito superior ao seu antecessor. Há ainda uma justificativa na história, pois Ethan passou por um treinamento militar e está mais apto a lidar com as ameaças. Nós sentimos o impacto de cada tiro e o simples ato de caçar loot é divertido. O jogo também não fica na mesmice, pois sempre apresenta tipos diferentes de inimigos de acordo com a progressão.

Vale notar, também, que o game traz algumas diferenças mecânicas que colaboram para “encarnar o Rambo”. Uma delas é o novo sistema de inventário, que faz com que itens importantes não ocupem espaço.

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O seguimento de Donna Beneviento é um dos mais assustadores do gênero de terror. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Em resumo, apenas armas, munições, bombas e primeiros socorros ocupam espaço na bolsa de equipamentos. Os recursos usados para fabricar munição e cura aparecem em um menu de criação à parte. Já os itens importantes, como os que utilizamos para solucionar quebra-cabeças e chaves, também aparecem listados em um menu dedicado e sem limite de espaço. Graças a isso, não há a necessidade de um baú para armazenar itens e aliviar o inventário, embora ainda seja possível expandir o inventário com o tempo.

A quantidade de sustos, por sua vez, foi um tanto atenuada em comparação ao Resident Evil 7, mas a tensão é constante em todos os cenários. O áudio, inclusive, é usado com maestria e qualquer ruído ou grunhido das criaturas próximas bastam para arrepiar cada pelo do corpo. A trilha sonora minimalista também colabora para construir o sentimento de medo, mas não é nada memorável.

Ainda falando sobre terror, há um momento específico que está entre os mais aterrorizantes que já pude jogar desde P.T. — e que claramente foi inspirado na demonstração de Silent Hills. É preciso preparar o coração, pois realmente é pesado e deve figurar como um dos momentos mais marcantes da franquia neste sentido.

O Duque traz bastante comodidade à jornada em Resident Evil Village e sempre deixa o jogador equipado. Foto: Divulgação/Capcom

O retorno do mercador

Resident Evil Village traz o retorno do mercador à franquia após mais de 15 anos, desde Resident Evil 4, agora representado na figura d’O Duque. O novo mercador tem certa relevância na história do game e aparece em pontos estratégicos da jogatina, normalmente próximo a pontos de salvamento.

Ele permite a compra de suprimentos, incluindo munições, bombas, receitas e melhorias de armas com uma moeda chamada “Lei”. Levando os itens corretos, como carne de animais, é possível cozinhar e receber melhorias permanentes como aumento de defesa e vida. O Duque, ainda, pode comprar tesouros que são encontrados em lugares escondidos ou que caem de inimigos. Isso significa que Ethan sempre terá renda o suficiente para comprar e fabricar cada vez mais munição e melhorar seus armamentos.

Até há uma tentativa de balancear a abundância de recursos com hordas de inimigos, especialmente no vilarejo. Os licanos, em particular, são o tipo de inimigo comum mais perigoso que a franquia já teve justamente por andar em bando e pela sua movimentação animalesca. Apesar disso, os cenários também têm munição jogada em vários cantos e os próprios inimigos podem dropar pólvora e engrenagens, então isso colabora para que o jogo seja mais fácil, pelo menos na dificuldade Padrão. Com isso em mente, eu recomendo que você jogue na dificuldade Intenso caso esteja buscando uma experiência desafiadora.

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Resident Evil Village é recheado de personagens interessantes e mistérios, mas tem pouco tempo de aproveitamento. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Muitos personagens e pouca margem para aproveitamento

A Capcom realmente conseguiu entregar um elenco de personagens carismáticos em Resident Evil Village, mas o tempo de campanha não dá muita margem para que eles sejam desenvolvidos. Não me entenda errado: o enredo entretém e se desenrola de uma forma tão agradável quanto em Resident Evil 7: Biohazard, mas eu tive 8 horas e 45 minutos de jogatina (na contagem do próprio game) e senti que a duração prejudicou especialmente os lordes, cujos confrontos passam a sensação de que acabaram rápido demais.

Donna Beneviento e Moreau, em particular, têm passagens muito breves pela campanha e nos fazem questionar se não mereciam seguimentos com a mesma duração de Lady Dimitrescu ou até mesmo de Heisenberg, que ocupa a maior parte do jogo. Em outras palavras, os lordes trazem propostas muito únicas e que enriquecem a experiência como um todo, mas o tempo de tela não faz jus ao verdadeiro potencial dos seus integrantes.

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Lady Dimitrescu e suas filhas atuam como perseguidoras em Resident Evil Village, mas por um vago momento. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Outro aspecto que colabora para a sensação de que o jogo foi mais curto e fácil do que deveria foram os quebra-cabeças. De um modo geral, a resolução é bem simples e isso pode incomodar os jogadores veteranos ou aqueles que buscam um nível de dificuldade mais acentuado.

Fator replay

Resident Evil Village, conforme a praxe, também é denso em conteúdo pós-zeramento para garantir uma melhor vida útil. O maior exemplo é o modo Os Mercenários, que é muito querido pelos fãs e faz sua estreia sob uma perspectiva em primeira pessoa. A premissa é enfrentar hordas de inimigos dentro de um tempo limite para garantir a melhor pontuação possível.

Para ajudar no objetivo, é possível comprar armas com O Duque e montar o seu arsenal para elaborar a melhor estratégia possível. Além disso, há algumas habilidades espalhadas pelo cenário que podem aumentar a velocidade de movimento ou até mesmo a potência dos tiros de Ethan.

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Os Mercenários é um modo arcade clássico que faz retorno em Resident Evil Village com novas características. Foto: Divulgação/Capcom

Há ainda alguns desafios durante a campanha principal que garantem uma moeda chamada “PC”, utilizada para destravar armas especiais, munição infinita e modelos de personagens para visualizar detalhadamente. É possível conseguir mais “PC” completando desafios ao longo da campanha principal, cujos objetivos estão listados no próprio menu de Bônus.

Todo o pacote de Resident Evil Village é muito divertido e realmente incentiva múltiplos zeramentos, seja para otimizar algumas rotas e zerar no menor tempo possível ou para descobrir alguns tesouros que podem ter ficado para trás. O gameplay refinado também é um excelente atrativo para continuar jogando e faz deste um dos games mais agradáveis da franquia.

Localização em português do Brasil

Pela primeira vez na história da franquia, em 25 anos, Resident Evil Village traz uma localização completa em português do Brasil, com legendas e dublagem, e o resultado é primordial. Eu experienciei o jogo totalmente em PT-BR e adorei as vozes como um todo, com destaque para Ethan, Mia, Lady Dimitrescu (que soa tão bem quanto na voz original em inglês) e suas filhas.

Há certos momentos, no entanto, que as vozes dos personagens se sobrepõem e isso traz dificuldade no entendimento, mesmo com as legendas ligadas. Também é comum que algumas falas simplesmente sejam cortadas sem querer em combates contra chefes, mas este é um problema que se repete na dublagem em inglês e que é bem comum em jogos com este tipo de atuação.

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Resident Evil Village prende do início ao fim e está entre os jogos mais divertidos da série. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Veredito

No fim, o sentimento que fica é de que toda a espera valeu a pena. Resident Evil Village se estabelece como um dos jogos mais divertidos da série e prende a atenção do jogador do início ao fim, seja pelo seu enredo intrigante e cheio de mistérios, pela atmosfera ameaçadora de cada um dos seus cenários interconectados, pelas melhorias de gameplay que competem com grandes nomes do gênero de tiro em primeira pessoa ou pelos personagens — que, por mais sádicos que pareçam, nos fazem querer ver cada vez mais deles.

Sabemos que os jogos estão caros hoje em dia e que temos que colocar bem na balança com o que vamos gastar. A melhor definição que posso dar para ajudar nesta decisão de compra é que Resident Evil Village melhora absolutamente todos os aspectos de Resident Evil 7, que trouxe de volta a boa fase desta franquia tão amada pela comunidade. Se você gostou do jogo anterior, não tenho dúvidas de que vai se apaixonar por Village e que vale a compra do novo game.

A Capcom certamente aprendeu muito desde Resident Evil 7 e se atentou ao feedback dos fãs com este lançamento que dividiu tantas opiniões na sua época. Embora a trama ainda deixe pontas soltas e traga algumas decisões questionáveis (que devem influenciar MUITO o futuro da franquia), o saldo é mais do que positivo e até busca responder alguns questionamentos que os fãs têm desde 2017. O que prevalece, sem dúvidas, é aquele frio na barriga sobre o que vem a seguir.

A cópia do jogo foi cedida pela assessoria da Capcom para a produção da análise.

PRÓSCONTRAS
Atmosfera tensa e imersiva do início ao fimPouco tempo de tela para aproveitar personagens
Gameplay refinado e divertidoBatalhas e puzzles fáceis de um modo geral
Ápice do RE Engine com gráficos fotorrealistasPequenos problemas de textura e pop-in
Personagens carismáticos e enriquecidos pela dublagem em PT-BRAlgumas animações de Ethan causam estranhamento
Fator replay