Samurai Shodown é uma das franquias da SNK que marcaram a era dos arcades dos anos 90, oferecendo combates intensos com armas brancas com uma dose elevada de violência no Japão feudal. Após onze anos fora dos holofotes e com a cobrança constante de fãs, a franquia finalmente recebeu uma sequência em 2019 apoiada em três pilares: respeito ao legado; evolução para os padrões da nova geração; e revolução com novos sistemas no gênero.

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O novo jogo está disponível a princípio para PS4 e Xbox One com suporte a legendas em português do Brasil. No final de 2019, as versões para PC e Nintendo Switch serão lançadas, mas ainda não têm uma data definida.

Vamos conferir a seguir as razões pelas quais Samurai Shodown revigora não somente o nome da franquia, mas também o da própria SNK — que vive seu melhor período em mais de uma década.

O elenco base de Samurai Shodown exala nostalgia ao mesmo passo em que apresenta novidades. Foto: Divulgação/SNK

Um produto chamativo com elenco marcante, mas tímido em modos de jogo

Várias figuras icônicas da franquia retornaram como jogáveis no novo Samurai Shodown. São dezesseis lutadores selecionáveis no elenco base — treze retornantes e três inéditos na série. Entre os clássicos, temos: Haohmaru, Genjuro, Galford, Ukyo, Nakoruru, Tam Tam, Kyoushiro, Earthquake, Shiki, Jubei, Hanzo, Charlotte e Yoshitora. Já no lado dos inéditos, temos: o tengu que age sob as sombras, Kurama Yashamaru; a pirata Darli Dagger; e a chinesa desastrada, mestre na arte Feng Shui, Wu-Ruixiang.

Uma das maiores qualidades da SNK, que é o character design, volta com tudo no jogo: os personagens novos contam com visuais marcantes e carismáticos. Isso faz com que os fãs sintam carinho rapidamente pelas novas figuras e deem uma chance a eles logo ao abrir o game pela primeira vez. Ao mesmo passo, os personagens clássicos têm o visual já reconhecido e amado pelos fãs, que se mostram chamativos ainda hoje em dia.

Os jogadores podem curtir uma seleção de modalidades logo de início: História — que é o modo arcade com chefe final —, Batalha Versus, Batalha Online — lobby casual e ranqueado —, Contra o Tempo, Sobrevivência, Luva de Aço, Treinamento e Dojo.

Rimururu será a primeira lutadora DLC de Samurai Shodown. Foto: Divulgação/SNK

A história é bastante simples e segue o formato clássico de arcade, que parece estar cada vez mais precário nos jogos de luta modernos, mas Samurai Shodown consegue fazer da forma correta. Há várias lutas para serem feitas, incluindo cenas pré-renderizadas, luta contra rivais e um combate intenso contra um chefe misterioso. Cada lutador conta com um prólogo e um encerramento próprio e há incentivos caso ele consiga superar todos os desafios sem perder vidas.

Por outro lado, os modos de Sobrevivência, Contra o Tempo e Luva de Aço não apresentam diferenças o suficiente para serem chamativos. Todos são pequenas variações da fórmula de enfrentar uma sequência de inimigos sob algumas condições: um deixa você com a mesma quantidade de vida ao partir para o próximo oponente; um força a enfrentar todos os lutadores do elenco; um coloca o jogador em uma sequência infinita de lutas para ver até onde consegue chegar. Claramente faltou criatividade e isso pode incomodar os jogadores mais casuais, que não querem se aventurar em uma infinidade de batalhas ranqueadas.

O modo Dojo, que foi promovido como uma das grandes revoluções do game, não funciona como deveria. O sistema de aprendizado de inteligência artifical prometia que os jogadores seriam capazes de enfrentar representações fieis de jogadores do mundo todo, mas, na prática, os “fantasmas” têm manias estranhas e não representam um desafio. Nos nossos testes, a inteligência artificial esquivava, fazia golpes overhead e dava golpes aleatórios durante a partida — o modo tradicional contra a CPU é muito superior.

O gameplay de Samurai Shodown é muito divertido. Foto: Reprodução/Bruno Magalhães

Gameplay recompensador que bebe do melhor da franquia

Samurai Shodown sempre foi uma série conhecida pelo dano altíssimo causado por golpes isolados, e isso não é diferente no novo jogo de 2019. Com um ritmo mais lento, o game dá ênfase no posicionamento e controle de espaço, incentivando os jogadores a antecipar os golpes dos seus oponentes e desferir punições gigantescas.

As mecânicas ofensivas e defensivas do game colaboram para um ritmo mais calculista: todos os personagens têm esquiva, overhead — golpe de cima para baixo que deve ser defendido em pé —, um parry que pode desarmar o oponente, defesa perfeita, um agarramento, um Super Especial que pode ser feito só uma vez por partida e uma barra de fúria. Assim como nos jogos anteriores, a barra de fúria enche conforme o jogador recebe dano ou acerta defesas perfeitas; quanto mais cheia, mais dano os golpes causam. Caso a barra esteja completa, um dos especiais do personagem é melhorado para causar mais acertos e dano.

Ainda quando a barra de fúria está completamente cheia, o jogador recebe acesso a dois movimentos: o Especial de Desarmamento, que, caso acerte o oponente, faz com que sua arma voe para longe; e o Issen (一閃) — ou corte relâmpago —, que causa um dano maior caso a vida do usuário esteja próxima ao fim. Todas essas mecânicas ditam o ritmo das lutas de Samurai Shodown, dando oportunidades para qualquer personagem se sobressair sobre os demais se tomar as decisões corretas.

Os fãs de longa data se sentirão em casa: as leituras corretas passam uma sensação de conquista indescritível e as derrotas não pesam tanto quanto em outros jogos de luta, pois temos plena consciência do que está acontecendo nas partidas. Se você tomar um golpe que arranca 50% da sua vida, pode ter certeza de que a culpa é totalmente sua.

Samurai Shodown tem uma belíssima direção de arte, que busca inspiração em artes japonesas. Foto: Divulgação/Sony

Atualização visual significativa graças à Unreal Engine

Inspirado por pinturas japonesas tradicionais, o novo Samurai Shodown adota um estilo gráfico ligeiramente cartunesco que reforça os traços dos personagens, provocando um agradável contraste com os cenários e remetendo ao estilo de Street Fighter IV. Graças ao poder da Unreal Engine e à experiência adquirida pelos artistas do estúdio desde o lançamento do polêmico The King of Fighters XIV, Samurai Shodown é uma legítima evolução e garante seu espaço em meio aos demais jogos de luta da geração.

O estilo artístico e o design de personagens, que são alguns dos pontos mais positivos do game, compensam a simplicidade de alguns modelos tridimensionais. As animações também são muito fluidas e transmitem total controle do ritmo da luta, permitindo reações e tomadas de decisão mais rápidas.

Os cenários, que incluem recriações de vários dos primeiros jogos da série, também são de tirar o fôlego e traduzem o que há de melhor no estilo japonês. A personalidade da SNK que tanto amamos está em cada canto do game e isso já é um grande motivo para dar uma atenção especial.

Nakoruru, momentos antes da desgraça acontecer na barra de vida de Earthquake. Foto: Divulgação/Sony

E quanto ao online?

Os jogadores de The King of Fighters XIV sabem o quão ruim é o histórico da SNK com modalidades online e havia uma preocupação genuína com relação ao Samurai Shodown. Tenho a satisfação e o alívio de informar que a experiência é muito melhor do que eu esperava, mas ainda assim tem ressalvas.

No PS4, fui capaz de realizar algumas dezenas de partidas casuais e aproximadamente 200 partidas ranqueadas — cuja maior parte foi transmitida pelo meu canal pessoal na Twitch. Há uma dificuldade estranha para encontrar jogadores e isso não é necessariamente pela falta de base instalada, mas sim pelo matchmaking confuso. Mesmo se você filtrar para encontrar jogadores com qualquer tipo de conexão, as chances de o jogo exibir apenas um oponente por vez são grandes.

Durante as partidas, foram raros os casos em que experienciei lag ou input lag elevado. Caso ambos jogadores estejam com o PS4 conectado ao cabo em vez da rede sem fio, a partida tem tudo para acontecer da maneira mais fluida possível; caso o contrário, haverá partidas em câmera lenta ou que sofram travadas repentinas — e claro que o plano de internet também deve ser levado em consideração.

O grande ponto negativo vai para as salas de partida casual: elas têm um formato pouco funcional. Até dez jogadores podem se juntar à sala, enquanto apenas dois se enfrentam. O problema é que todos que quiserem assistir aos combates precisam obrigatoriamente entrar em um slot de espectador e não existe uma fila automática para definir o próximo a lutar. Isso significa que, assim que a partida acaba, é uma corrida para ver quem consegue entrar na vaga primeiro. Simplesmente não funciona.

Rimururu, Basara, Kazuki e Wan-Fu são os lutadores do Primeiro Passe de Temporada, que ficou gratuito por tempo limitado. Foto: Divulgação/SNK

Engajamento com a comunidade

Não temos como passar por este review sem parabenizar a SNK pelo engajamento com a comunidade e a reação imediata aos feedbacks. Ainda na época em que havia apenas versão de demonstração japonesa do game, a empresa se prontificou a corrigir o input lag de 8 quadros, que fazia com que os botões saíssem com atraso maior do que deveria. A versão final do game agora tem um atraso de apenas 4 quadros e é um dos mais rápidos da atual geração de consoles — perfeito para lutas em que cada erro é fatal.

Para vocês terem uma ideia, o primeiro passe de temporada de Samurai Shodown, que adicionará Rimururu, Basara, Kazuki e Wan-Fu de dois em dois meses até fevereiro de 2019, foi oferecido de graça por aproximadamente uma semana a todos os jogadores. Acreditava-se que a oferta seria apenas para os jogadores que fizessem a pré-compra, mas até mesmo as pessoas que não tinham o jogo foram capazes de garantir o conteúdo.

Com relação ao online, a SNK está coletando opiniões constantemente e se comunicando para chegar à melhor decisão. É possível que todos os problemas reportados até o momento sejam resolvidos em uma grande atualização em breve, talvez como parte da EVO 2019 — o maior campeonato de jogos de luta do mundo.

O game será um dos jogos principais da competição e contará com um incentivo de US$ 30 mil em premiação por parte da SNK, desconsiderando o valor arrecadado com as inscrições; o torneio já conta com mais de mil jogadores confirmados e é o maior torneio já ministrado de um jogo da empresa.

Em suma, Samurai Shodown é não somente o retorno definitivo da franquia de luta de espadas, mas também da própria SNK. A empresa saiu de um momento conturbado, à beira da falência, e começou a se reerguer com o lançamento de KOF XIV. Com toda a sua personalidade, o futuro da empresa é brilhante e mal podemos esperar pelo que ela reserva aos fãs de longa data e para a nova geração que testemunhará seus trabalhos.

A cópia do jogo foi cedida pela publicadora para a produção de review