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Cativante e desafiador, Sifu é o melhor jogo de Kung Fu já feito

Novo game da Sloclap entrega combate fluido e refinado em uma das maiores surpresas de 2022; veja análise completa

Lançado em 9 de fevereiro de 2022 para PC, PS4 e PS5, Sifu é um beat’em up 3D que mistura a complexidade dos combos em jogos de luta com mecânicas roguelite, em que você mantém certo progresso após a morte. O estúdio francês Sloclap (Absolver) definiu como principal conceito da experiência a utilização da idade como fator limitante, visto que, cada vez que o protagonista é derrotado, tem a opção de voltar ao combate mais velho. 

Além de incentivar a repetição, o game possui um visual que atinge o meio termo entre o real e o cartunizado, acompanhado de ambientes coloridos e uma trilha sonora harmoniosa. Apesar dos inúmeros acertos, possui falhas na forma como apresenta o enredo e a dificuldade ao jogador. Confira mais detalhes sobre Sifu nos próximos parágrafos.

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Sifu remete a jogos como Streets of Rage e traz elementos roguelite que recompensa a evolução do jogador a cada sessão. Foto: Divulgação/Sloclap

Narrativa esquecível

A história de Sifu é a mais clássica construção de uma vingança. Na introdução, controlamos o líder de um bando que assassina o pai do(a) protagonista, que, ainda criança, se traumatiza e deixa florescer o ódio. Oito anos e muito treino depois, ele(a) formula um plano para ir atrás dos culpados pela destruição de sua família.

Após a cinemática inicial, o enredo é apresentado somente em cenas pré e pós-lutas contra chefes. É possível explorar cada cenário do jogo, cinco no total, para coletar pistas e preencher um quadro de investigação que contém informações mínimas sobre o contexto do mundo do jogo. O sentimento que fica é que a narrativa de Sifu representa um potencial perdido. São compreensíveis as limitações do estúdio Sloclap e talvez o desejo de voltar os olhares para a jogabilidade de combate, mas os personagens são muito mal aproveitados.

Cada ex-membro do grupo assassino ocupa uma posição importante em um ramo da sociedade, mas nada disso é deixado explícito ao jogador. A menos que a pessoa se interesse em interromper o ritmo frenético da jogatina para ler folhetos e itens coletados, terá a sensação de estar caminhando sobre águas desconhecidas. Não é possível sentir raiva ou respeito por cada um dos chefes e essa ausência prejudica a experiência geral.

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Cada chefe de Sifu é representado por um estágio diferente. Foto: Divulgação/Sloclap

Combate (quase) perfeito

A estrela de Sifu é seu combate. Rápido, preciso e intenso como artes marciais na vida real, ele exige um treino quase físico e mental para que os desafios sejam superados. O objetivo por trás da jogabilidade do game é gerar um sentimento de melhora no jogador, que percebe sua progressão e aprimoramento a cada sessão que consegue terminar com mais facilidade.

O principal recurso das brigas é a barra de estrutura, que funciona como uma mecânica de equilíbrio para atordoar e executar adversários. Para isso, dá pra utilizar armas brancas, arremessar objetos, esquivar e interromper golpes inimigos nos momentos certos. Também dá pra concentrar seu ataque em um poderoso impacto direcionado, os Golpes de Foco, mas infelizmente a mecânica deixa vulnerável a ameaças, pois apenas desacelera o ambiente em volta.

Confronto após confronto, o protagonista pode utilizar os chamados Santuários de Jade para recuperar a vida e escolher uma melhoria em três categorias, recompensando a idade, a pontuação atual do cenário ou a experiência obtida. A última serve também para adquirir habilidades que adicionam variedade ao arsenal de pancadaria. 

Cada golpe, fruto de capturas de movimento feitas por um mestre em Pak Mei, acrescenta uma riqueza única ao jogo. A firmeza de cada impacto, o apertar rápido ou demorado de botões e a fluidez na troca de alvos fazem de Sifu o melhor jogo temático de Kung Fu disponível. Contudo, na qualidade incontestável de seu combate mora também a maior falha do game.

Sifu possui picos de dificuldades propositais, que exigem investimento do jogador para serem vencidos. Infelizmente o jogo não se preocupa em apresentar mecânicas básicas para superar tais barreiras e, quando o faz, é de maneira superficial. Aliado a isso, ele apresenta poucos recursos de acessibilidade, em especial na versão de PlayStation, que lançou sem o modo de alto contraste presente no PC. Para um título que exige reações de milésimos de segundo, um remapeamento de botões não é suficiente. Mesmo que um modo mais fácil tenha sido parcialmente confirmado, é preciso disponibilizar a maioria das funções planejadas logo de início.

É plenamente possível terminar Sifu e fica um pouco injusto caracterizá-lo como “difícil”. Sifu é exigente… E essa imposição toda pode afastar muitas pessoas que talvez não estejam tão dispostas a bater com o punho na parede constantemente. Não é sobre facilitar algo, mas sim adaptar e entender que a experiência desenvolvida merece ser aproveitada por qualquer um. 

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Em Sifu, é comum ter de lidar com vários oponentes ao mesmo tempo e o game faz o jogador se sentir muito poderoso. Foto: Divulgação/Sloclap

Roguelite engenhoso

Sifu usa muitas mecânicas do gênero mais popular da atualidade. Mesmo pisando em território parcialmente saturado, consegue explorar as nuances dos roguelikes de forma criativa. Os cenários de cada fase, por exemplo, diferenciam-se uns dos outros e passam não só a sensação de grandeza nos locais abertos e sufoco nos corredores estreitos, mas também indicam uma progressão notável na elegância dos ambientes e no curso da história.

A quantidade de inimigos nas fases é fixa, sendo cada um sempre o mesmo adversário posicionado no mesmo local. Você se acostuma com a ameaça que NPCs representam e começa a usar o treinamento por repetição de forma quase automática, prevalecendo o conhecimento e melhora que todo roguelike deve seguir.

Opções de diálogos podem evitar lutas e até revelar segredos nas fases, preenchendo com informações o quadro de investigação já mencionado. Ao derrotar certo inimigo, o protagonista recebe uma chave usada para pular boa parte do cenário e, por vezes, ir direto para o confronto com o chefe. A adição surpreende, mas o dinamismo é quebrado pelo teor repetitivo. São duas ou três opções em cada conversa que possuem resultados definidos, ou às vezes consequências mínimas que questionam a escolha de incluir a mecânica.

Toda a preocupação da equipe de desenvolvimento em criar um combate perfeito não impediu que construíssem um sistema roguelike de forma inovadora e diferente. Como um dos elementos principais, era imprescindível acertar. Nisso, a Sloclap deu um pontapé em cheio!

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Sifu é uma das grandes surprersas de 2022 e deve agradar entusiastas de jogos desafiadores. Foto: Divulgação/Sloclap

Conclusão

Sifu tem uma energia única. Requer precisão, paciência e dedicação. É um dos jogos mais cativantes que joguei nos últimos anos e uma das experiências mais recompensadoras também. A transição de combates multiplayer de Absolver para uma aventura de um jogador foi a melhor decisão da Sloclap, que mostrou um potencial gigantesco como estúdio.

Com uma disparidade de preço nas versões de PS4 e PS5 (R$ 214,90) e na versão de PC (R$ 75,99), é difícil não recomendar uma promoção, especialmente para jogadores de console. É um jogo para um jogador, relativamente curto e com uma curva de aprendizado que levará cerca de 15h para dominar. Ainda assim, recomendo a compra para todos os fãs de artes marciais, jogos de luta ou de um game divertido de pegar o jeito e que incentiva o fator replay.

Não esquecerei Sifu tão cedo e sou grato por isso. Ainda que pouco acessível e levemente desbalanceado, é uma jornada de vingança em que o ódio é substituído pela satisfação de dar rasteiras nos inimigos. Uma em sequência da outra, claro.

A cópia do jogo foi fornecida pela assessoria de imprensa para produção de review

PRÓSCONTRAS
Combate impecávelEnredo fraco
Roguelite criativoFalta acessibilidade
Sensação de evolução do jogadorFaltam tutoriais
Fases intensas e bem construídasModo treino simples demais

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