Após o grande sucesso de Thor: Ragnarok, o diretor Taika Waititi retorna à Marvel Studios para dirigir o quarto filme do Deus do Trovão, Thor: Amor e Trovão, que estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira, 7 de julho. Além do retorno das estrelas Chris Hemsworth e Tessa Thompson aos seus respectivos papéis, o novo longa-metragem conta com a volta de Natalie Portman como Jane Foster, agora também conhecida como Poderosa Thor, e com a adição de Christian Bale como o vilão Gorr, o Carniceiro dos Deuses.

Com um dos melhores elencos do MCU e com a promessa de adaptar duas grandes histórias em quadrinhos de Thor, a inédita produção desperdiça o seu real potencial ao optar por focar em momentos de comédia em vez da trama proposta. Nas linhas a seguir, confira a crítica completa de Thor: Amor e Trovão.

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Mesmo com mais de 10 anos na Marvel, Thor ainda evolui como personagem. Foto: Divulgação/Marvel Studios

No Universo Cinematográfico Marvel, alguns fãs consideram os filmes individuais de Thor como as piores obras da franquia. Essa opinião era uma unanimidade até a estreia de Ragnarok, que dividiu a base de fãs entre aqueles que adoraram o tom mais cômico e o estilo que Taika Waititi deu para o herói e aqueles que detestaram a pegada mais humorística do cineasta. Para a sorte da Marvel, o público gostou da visão mais jocosa apresentada, pois ela tinha um equilíbrio decente entre piada e drama. No entanto, em Amor e Trovão, há um enorme desequilíbrio entre os dois aspectos citados acima. Ao oferecer liberdade criativa total a Waititi, parece que o diretor apenas intensificou e dobrou a quantidade de humor, e simplesmente esqueceu da parte mais importante de um filme: a história.

É como uma receita: se você dobra a quantidade de sal no preparo do prato, é necessário dobrar a quantidade de água. Porém, no novo longa-metragem, Taika apenas encheu de sal e esqueceu do resto. Isto é muito perceptível na primeira hora de filme, em que temos muitas piadas acontecendo em tela, mas muitas mesmo. Isso para uma produção de apenas 2 horas de duração é um grande problema, já que você está gastando metade do tempo só para ser engraçado, prejudicando a hora restante que precisa avançar com história, desenvolver personagens e fechar de maneira adequada a narrativa. E por incrível que apareça, o roteiro consegue conectar todas as pontas soltas e fazer uma linda conclusão para trama, mas não sem afetar o desenvolvimento de personagens.

Todo o ponto negativo citado acima, a falta de harmonia entre humor e drama, não é um problema de Taika Waititi como diretor, mas como roteirista. O mais irônico de tudo é que as piadas funcionam, muito por causa do talento que Taika tem na escrita desse gênero cinematográfico e pela excelente habilidade de Chris Hemsworth como ator de comédia. O único problema é o exagero.

Se houvesse um equilíbrio, ouso dizer que Thor: Amor e Trovão seria um dos melhores filmes da história do UCM. Os arcos que o longa-metragem adapta e usa como inspiração — Poderosa Thor e O Carniceiro dos Deuses — são fenomenais e emocionantes, principalmente na primeira saga, em que temos uma carga dramática muito presente. Contudo, ao que me parece, Taika Waititi e Jennifer Kaytin, os roteiristas da produção, leram as HQs mencionadas, pegaram as suas ideias básicas e as transportaram para o live-action, mas sem de fato entenderem as mensagens que os quadrinhos querem passar.

A trama mostra Thor procurando um novo propósito de vida após os épicos eventos de Vingadores: Ultimato. Para isso, o herói parte para as estrelas com os Guardiões da Galáxia na esperança de poder encontrar no espaço sua nova missão. Porém, mesmo salvando diversos planetas com o grupo espacial e sendo adorado por muitos, nada disso elimina o grande vazio que há no Deus do Trovão. Essa solidão no herói muda quando Gorr, Carniceiro dos Deuses, começa uma onda de extermínio de divindades pelo universo, espalhando terror e pânico nos habitantes do cosmo. Incapaz de derrotar e impedir os planos do vilão sozinho, Thor monta uma equipe com Rei Valquíria, Korg e sua ex-namorada Jane Foster, que agora empunha o martelo mágico Mjölnir, para deter esta grande ameaça.

Thor amor e trovão crítica
Natalie Portman retorna como Jane Foster/Poderosa Thor em novo filme do Deus do Trovão. Foto: Divulgação/Marvel Studios

O grande destaque deste time de heróis é a chegada de Jane Foster como Poderosa Thor que, apesar dos motivos para ela conseguir segurar o martelo no filme serem menos emocionantes e impactantes do que nas HQs, ainda é uma explicação válida e que funciona. E é muito bacana ver a Natalie Portman novamente na Marvel, agora como uma heroína poderosa e destemida, todavia iniciante nesta jornada de bem contra o mal. Suas cenas de ação são maravilhosas e a maneira como ela usa o Mjölnir em batalha é bem mais interessante que a de Thor. Entretanto, o desenvolvimento da personagem é superficial, bem contrastante da visão que os trailers estavam entregando, dando a entender que ela seria uma espécie de coprotagonista, assim como a Feiticeira Escarlate estava para Doutor Estranho em Multiverso da Loucura. Apesar de estar presente no filme todo, a personagem infelizmente é mal trabalhada.

A mesma crítica vai para a personagem de Tessa Thompson, Rei Valquíria, que neste filme é reduzida à uma simples combatente. A trama até tenta explicar mais do passado da guerreira e tenta trazer um drama para ela, contudo, como o longa perde tempo com piadas e esquece de explorar seus personagens, Valquíria fica completamente ofuscada. Se a personagem não estivesse presente, não faria nenhuma diferença para história, o que é uma pena.

Em relação ao grande vilão do filme, Gorr tem uma origem e motivações praticamente idênticas aos quadrinhos, mas com sutis mudanças. Christian Bale entrega uma ótima atuação, como em qualquer outro de seus trabalhos, trazendo um personagem obstinado a concluir sua jornada de aniquilar todas as divindades existentes no universo, pois elas não cumprem suas responsabilidades com os mortais. Suas razões são óbvias e claras desde o começo da narrativa, mas elas também não são exploradas, ficando apenas na superficialidade. Por eu ter a bagagem das HQs, eu trouxe um pouco das motivações das revistas para história do filme, e isso está errado pois é dever do longa-metragem me entregar causas o suficiente para pelo menos entender o porquê dele estar fazendo aquilo, como aconteceu com Thanos e Killmonger, por exemplo. No final de Amor e Trovão, um certo evento acontece com Gorr, que é plausível e condiz com o que nos foi apresentado no decorrer das 2 horas, mas ainda traz uma sensação de estranheza.

Por fim, mesmo com quatro filmes solos e participações em outros títulos do Universo Cinematográfico Marvel, Thor também evolui e cresce como personagem, tendo um destino bem interessante e que provavelmente quase ninguém esperava. No novo lançamento, apesar de ter aquele humor característico do asgardiano, temos um Deus do Trovão mais cuidadoso e preocupado com os outros ao seu redor e que apresenta, pela primeira vez, sinais de liderança — elaborando planos, cobrando obrigações de outros personagens. Uma camada que apareceu em pequenos momentos de Guerra Infinita e Ultimato, e que agora é reforçada.

Thor amor e trovão crítica
Química de Thor com Jane Foster é o grande destaque do filme. Foto: Divulgação/Empire

O grande destaque da produção é a dinâmica e relação de Thor com Jane Foster. Mesmo com Portman estando longe da Marvel por quase 10 anos, a química que os atores têm, e também os próprios personagens, não desapareceu. Ela sempre esteve presente, apenas precisando ser reacendida. São nos momentos em que a dupla está contracenando que temos ótimas situações de comédia e as melhores cenas dramáticas, principalmente no final da trama, que se tivesse sido explorada da maneira apropriada, poderia gerar um dos momentos mais lindos da história do UCM.

Para concluir, Taika Waititi traz excelentes referências e easter eggs dos quadrinhos do Thor, seja da aparição de personagens até homenagens aos visuais clássicos dos quadrinhos. Para quem gosta do herói e suas aventuras, será uma maravilhosa sobremesa. Em contrapartida, a trilha sonora, que foi um dos melhores pontos de Ragnarok, aqui é esquecível, mesmo com a presença de Guns N’ Roses.

Mesmo com a faca e o queijo na mão para entregar a melhor história do deus asgardiano nas telas, Thor: Amor e Trovão desperdiça o seu real potencial ao preferir contar piadas ao invés de desenvolver os seus personagens e contar uma história de fato. Mesmo queimando dois excelentes arcos das HQs do herói, o filme ainda é capaz de entreter o público com suas piadas, grandes cenas de ação e momentos de drama.